
EASTERN PROMISES, o novo de Cronenberg (escrito por Steven Knight) é um dos melhores filmes do ano. Quando uma jovem russa morre ao dar à luz, a parteira Anna (Naomi Watts) sente-se na obrigação de encontrar os familiares do bébé, e procura pistas dentro do diário da falecida. Mais tarde vimos a saber que Anna não está a fazer isto por conveniência de guião, mas porque para além de ter ascendência russa, ela própria perdeu um bébé. Um cartão dentro do diário leva-a a um restaurante de luxo operado por Semyon (Armin Mueller-Stahl), que parece interessadíssimo em cooperar.
Este gesto de compaixão de Anna aponta para o tema principal de EASTERN PROMISES, o de identificação. Quando Anna começa a entrar em contacto com as figuras relacionadas com Semyon, o foco do filme passa para o insondável Nikolai (um excelente Viggo Mortensen), membro da família de crime organizado vor v zakone sob as ordens de Semyon.
Nikolai é apenas um soldado da organização, o "motorista" como a si mesmo se denomina, apesar de fazer vários "trabalhos manuais" para os seus empregadores. Acompanha sempre o filho de Semyon, Kirill. Kirill, por sua vez, é um fanfarrão e um hedonista que luta contra a sua própria natureza homosexual. Tem uma clara atracção por Nikolai, e a impossibilidade de o ter fá-lo oscilar entre o ódio e a compaixão pelo motorista.
EASTERN PROMISES é auto-contido, com as suas próprias regras, tal como os vor v zakone. O filme não tem uma estrutura rígida de três actos. Nenhum personagem tem um apelido, já que estas se encontram perdidas da sua identidade. Apesar de ser um filme vívido e intenso, não se coíbe de um final feliz que muitos outros filmes do mesmo género teriam evitado.
Neste filme a violência é cometida com punhos, com lâminas, ou com agulhas de tatuagem. Não há um único disparo. Uma sequência de luta numa sala de sauna é lendária não só pela violência mas também pela nudez. Nudez essa que não, não é gratuita. As tatuagens de Nikolai explicitam a sua história dentro da máfia russa, e os golpes que vai sofrendo são apenas outro tipo de indícios.
Por estas razões e por outras, EASTERN PROMISES é um filme íntimo. E, ao mesmo tempo, um filme distante, como uma história contada através de recortes de jornal, exactamente como uma história sobre "estrangeiros" deve ser. O que é sem dúvida, é um grande filme.
2 comentários:
"um dos melhores filmes do ano"?
Eu não ia tão longe, mas se me perguntares que outros houve melhor que este, tão não te consigo responder.
Vou ter de concordar contigo. E acrescento ainda que é um dos que mais gostei do Cronemberg...
Está bem melhor do que a anterior aproximação dele a Hollywood, o A HISTORY OF VIOLENCE.
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