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domingo, dezembro 30

#1 - EASTERN PROMISES
Diz-me com quem andas


IMDb

A HISTORY OF VIOLENCE, de 2005, foi uma aproximação de Cronenberg a Hollywood, a algo muito mais mainstream. Não foi um filme mau, foi até muito bom. Mas lamentou-se a ausência das marcas do realizador, aquela assinatura de autor que funciona muito muito bem quando é algo que nos diz alguma coisa, e que às vezes funciona ainda melhor quando nos é estranho.

Sobre o estranho debruçou-se este magnífico EASTERN PROMISES. Com um guião apenas medíocre, Cronenberg trouxe-nos uma história densa sobre a questão da identificação pessoal. No seu essencial, o filme diz-nos que não há uma moral rígida, um código de valores universal. Somos apenas indivíduos em conflito com a sua própria pessoa e com a pessoa que são para o mundo.

Viggo Mortensen já tinha sido o melhor de HISTORY, e neste PROMISES é-o de novo. Nikolai é uma corporização do filme, com o seu tom cru e ao mesmo tempo subtil, contido mas ao mesmo tempo explosivo. Já Naomi Watts teve a (in)felicidade de ser poupada às torturas tradicionais de ser uma personagem principal num filme Cronenberg, e ainda por cima carregou em si todas as fraquezas do guião: os macguffins e o final feliz.

Muito, muito bom. Fica com o primeiro lugar porque aumentou consideraveente as expectativas para o próximo filme "acessível" de Cronenberg, expectativas estas que estavam ligeiramente em baixo depois de A HISTORY OF VIOLENCE.

Fica o link para a análise já feita neste blog:

[Crítica original no 4E]

#6 - CONTROL
Substância


IMDb

Este filme não se encontra mais acima na lista porque, no final, acaba por ser um serviço aos fãs (casuais ou não) dos Joy Division. Mas CONTROL não é apenas uma muito honesta homenagem a Ian Curtis. Vale por si só como obra cinematográfica, com enquadramentos belos até à dor, e uma luz que é personagem principal.

Baseado nas memórias da viúva, CONTROL teve porventura drama mundano a mais e retrato dos Joy Division a menos. O primeiro seria inevitável, o segundo é mais do que redimido com as excelentes reproduções das actuações ao vivo dos Joy Division. Incrivelmente, o DVD que vem aí pouco detalha sobre a preparação musical dos actores.

Lamenta-se a muito parca distribuição deste filme pelas salas portuguesas.

Fica o link para a análise já feita neste blog:

[Crítica original no 4E]

sexta-feira, dezembro 28

#2 - DEATH PROOF
Novos truques antigos


IMDb

DEATH PROOF teria conseguido o primeiro lugar se não fosse tão niche. Como é, não faz sentido considerar algo tão obscuro e fechado em si mesmo o melhor filme deste ano. Mas mesmo asism, é algo notável pela integridade de Tarantino, que neste ponto da sua carreira não se preocupou em satisfazer a totalidade da sua audiência planetária.

DEATH PROOF é o lado mais bem conseguido de Grindhouse, um malfadado projecto de Tarantino e Rodriguez. Em vez de um espaço para vários realizadores irem brincando com o género ao longo de sequelas, por causa da fraca adesão nos Estados Unidso ficamos um produto de culto que está assinalado com caneta vermelha no livro de contabilidade dos irmãos Weinstein.

Um filme desenhado para ser visto numa sala de cinema com muita gente e qualidade de projecção opcional.

Momento definitivo: Stuntman Mike a olhar para a câmara e a sorrir. O espectáculo ia começar, e a primeira morte foi a da quarta parede.

Fica aqui o link para a análise já feita neste blog:

[Crítica original no 4E]

#7 - HOT FUZZ
Mais uma pint


IMDb

Para os que não conheciam o trabalho em televisão de Edgar Wright, HOT FUZZ veio comprovar que Shaun of the Dead não foi produto do acaso. Uma vez mais a trazer-nos um spoof enriquecido, HOT FUZZ é um filme não só competente na sua homenagem como tem uma personalidade própria. Apesar de provavelmente ser um filme menos duradouro do que SHAUN, FUZZ não desiludiu e mantém grandes as expectativas para os futuros projectos de Wright.

Momento definitivo: Danny a viver o drama de Keanu Reeves em POINT BREAK.

Fica aqui o link para a análise já feita neste blog:

[Crítica original no 4E]

quinta-feira, dezembro 27

#3 - ZODIAC, de David Fincher
Eco de uma noite de verão


IMDb

À partida, e pelo menos no papel, ZODIAC não poderia escapar às comparações com outro filme de David Fincher, o thriller SE7EN. Mas desde o princípio do filme é claro que qualquer comparação será fútil. São duas obras que aparentam ter terreno comum, mas que acabam por se revelar produtos completamente diferentes. A diferença principal é que ZODIAC é baseado em factos e pessoas reais. Este filme é uma adaptação dos dois livros de Robert Graysmith sobre o Assassino do Zodíaco, que durante os anos setenta aterrorizou a região de São Francisco. Para além de cinco vítimas mortais, o Zodíaco tornou-se célebre por enviar mensagens e cifras aos jornais e às autoridades, detalhando as suas acções e anunciando as suas intenções futuras.

No filme acompanhamos o personagem do próprio Robert Graysmith, cartoonista do “San Francisco Chronicle” na altura dos assassinatos. Quando a primeira carta chega à redacção do jornal, Graysmith começa a sua espiral de obsessão com a identidade do assassino. Ao longo do filme irá contar com a ajuda de outros que também foram atraídos para o caso: o cronista criminal do “Chronicle”, desempenhado por um Robert Downey Jr. delicioso e o inspector da polícia Dave Toschi, com Mark Ruffalo a trazer credibilidade e um lado humano a uma figura que seria demasiado fantástica não fosse o facto de existir mesmo. De facto, as prestações secundárias chegam a ser tão boas que por vezes destacam uma certa falta de carisma de Jake Gyllenhall, que tem o papel principal.

ZODIAC parece à primeira vista uma mudança radical no estilo de David Fincher, mas passados alguns minutos logo vemos que se trata de uma ilusão: o virtuosismo e estilo continuam lá, só que desta vez apostados em tornar a história tão realista e fiel quanto possível. Esta subtileza funciona na perfeição, não havendo paternalismos nem esfregando a cara do espectador no facto da narrativa ter lugar algumas décadas no passado. Quem tiver atenção ao detalhe encontra os sinais de período lá: nas roupas, nos carros, na música. Mas não esperem encontrar cortes de cabelo ridículos ou uma sucessão de "Greatest Hits of the 70s".

No entanto, este é um filme que inevitavelmente vai trazer alguma frustração ao seu público. Depois de um primeiro acto recheado de desenvolvimentos e com cenas de assassínio genuinamente originais e electrizantes (filmadas de uma maneira crua e estóica, o que as torna ainda mais horríveis), somos levados numa investigação que vive apenas de dossiers e ficheiros. Não será um espectáculo, mas foi assim que aconteceu.

Momento definitivo: O tracking do ponto de vista de um pássaro a um táxi com um ocupante especial, enquanto este conduz pela cidade.

#8 - AMERICAN GANGSTER
Orgulho e cegueira


IMDb

Um filme que se baseie em factos verídicos terá automaticamente uma dimensão pungente, um peso maior aos elementos dramáticos. A clara desantagem é que não se poderá desviar de um eixo de factos, por mais interessante que umas alterações tornariam a história.

Em AMERICAN GANGSTER, Ridley Scott decidiu tornar uma história interessante em algo ainda mais complexo e interligado. A custas da veracidade.

Mas sobre esse ponto já falei em demasia na crítica da altura do 4E. Resta aqui justificar a presença de AMERICAN GANGSTER no Top10. E isso é o mais fácil. Tomado por si mesmo, o filme tem o perfeccionismo técnico de esperar de Scott. Tem dois grandes actores nos papéis principais (embora com muito maior destaque para Denzel Washington), e é uma recriação de período que rivaliza com ZODIAC, o segundo filme do Top10 de hoje. Para além disso, tem possivelmente o melhor último plano do ano.

E tudo isto dentro de um género que (pensava-se) já tinha dado tudo o que tinha a dar. Ridley Scott merece que se ignorem os factos verídicos nos quais este filme é baseado.

Momento definitivo: O já mencionado plano final. Ao sair da prisão, Frank Lucas é agora apenas mais um transeúnte. O mundo já foi seu, mas não teve direito a um fim "Tony Montana". Como atesta o som a sair de um carro que passa pela estrada, o mundo de Frank Lucas (assim como o mundo em geral) já avançou, já o deixou para trás.

Fica o link para a análise já feita neste blog:

[Crítica original no 4E]

quarta-feira, dezembro 26

#4 - DON'T COME KNOCKING, de Wim Wenders
Nunca olhar para trás


IMDb

Antes sequer de conhecermos o personagem de Sam Shepard, sabemos que ele está a fugir. Sabemos que é um velho actor de westerns que um dia decide fugir no seu cavalo a meio da rodagem de um filme no meio do deserto. Embora sem agenda, esta fuga vai acabar por levá-lo a uma chamada à responsabilidade, a uma prestação de contas a todas as "fugas" do seu passado.

Co-escrito por Wenders e Shepard, DON'T COME KNOCKING é um filme errático, aberto, simbólico. Dá-nos uma imagem pérfida do personagem principal, apenas para pouco mais tarde nos perguntar se ele estará de facto no caminho para a redenção.

O personagem de Shepard é Howard Spence, uma estrela de westerns que já vai adiantado em anos, e todos eles um exercício de indulgência e auto-destruição. Afogado num mar de oportunidades, preferiu rebolar sem medo nem culpa, um caminho que apenas leva à valeta. Ao saber da possível existência de um filho seu numa terrinha onde há 30 anos tinha rodado um filme, Howard decide, sem saber porquê, procurá-lo.

Visualmente, DON'T COME KNOCKING é vívido, com cores primárias e especial destaque às da bandeira americana. Em quase todos os shots é possível encontrar no décor um jogo entre elementos do passado e elementos do presente, neste que é um conto de reacções tardias, de ecos distantes.

Em papéis secundários temos valores como Jessica Lange, Tim Roth e Eva Marie Saint. Um luxo necessário quando se trata da descoberta da humildade no personagem principal.

A América de Wim Wenders continua em exibição. E nós ganhamos um grande filme.


Momento definitivo: Com a câmara a orbitar Sam Shepard sentado num sofá no meio da estrada, elementos do cenário e pequenos sons permitem-nos adivinhar a tão-adiada introspecção e reflexão do personagem sobre a sua própria vida.

#9 - THE BOURNE ULTIMATUM
O bom cowboy


IMDb

Quando esta trilogia de espionagem e acção de Paul Greengrass começou em 2002, fomos logo remetidos para RONIN, do saudoso Frankenheimer. Foram bem-vindas as sequências de tensão frenéticas a contrastar com o cenário do pitoresco europeu, uma espécie de Inter-rail com armas. Mas BOURNE IDENTITY tinha mais para oferecer, não sendo a menor de todas um Matt Damon como leading man durão. BOURNE SUPREMACY acabou por não acrescentar muito mais à trama, embora não haja queixa de mais um capítulo de suspense elegante e sequências viscerais.

BOURNE ULTIMATUM é o digno fecho a esta trilogia, onde o tom mais - não diria superficial mas - à flor da pele dos dois primeiros foi substituído por uma trama mais pessoal, mais catártica para os personagens (sobreviventes).

Momento definitivo: Bourne esmurra um infeliz com um livro. Repetidamente.

Fica o link para a análise já feita neste blog:

[Crítica original no 4E]

terça-feira, dezembro 25

#5 - RESCUE DAWN
Génio inabalável


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O nome de Herzog já está gravado em solidez nos anais da cinematografia. Logo, cada seu novo projecto é uma celebração. RESCUE DAWN foi um filme visceral na sua abordagem da esperança e da sede de (sobre)viver. Um filme de prisioneiros onde a fuga é apenas o princípio.

Momento definitivo: Depois de uma hipótese de salvamento ter sido perdida, Dieter protesta cotnra o seu azar. Mas mesmo nesse momento mais desencorajador, é maior a confusão do que a raiva ou o desespero.

Fica o link para a análise já feita neste blog:

[Crítica original no 4E]

#10 - TRANSFORMERS, de Michael Bay
Aquilo que o olho alcança comanda


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Michael Bay faz um filme baseado numa linha de brinquedos?
Pelo pitch parecia que Bay ia sair do armário e assumir-se como um merceeiro. Pelo caminho, íamos ter oportunidade de ver um filme ir longe demais (de menos?) com o CGI e proporcionar-nos um espectáculo ridículo. Por mais aberta que a mente estivesse, a visão de pessoas a interagir com robots falantes do tamanho de um edifício não trazia grande confiança.

Mas, como é costume ter de se fazer com os preconceitos, tiveram que se engolir. TRANSFORMERS consegue não só não caír no ridículo, como ainda nos traz um brilho ao nível de efeitos especiais que estes se chegam a destacar, mesmo numa altura em que estes a trivialização do CGI parece ser um facto. A suspensão da descrença nunca se fragiliza mesmo quando somos presenteados com uma massa de metal falante que se enerva com um cão incontinente. Os efeitos especiais nunca quebram ou ignoram as leis da física, o que contribui imenso para a aceitação.

Afastando-se significativamente do teor dos cartoons que celebrizaram esta franchise (não havia outra forma) TRANSFORMERS assemelha-se mais a um disaster movie do que a um filme de fantasia/aventura. Os humanos aqui são apenas espectadores, que têm de fazer o melhor para não se tornarem em dados colaterais da batalha robótica que chegou ao planeta.

Uma nota de destaque para Shia Labeouf e John Turturro. O primeiro conseguiu aguentar melhor com o peso do greenscreen sobre os ombros do que muitos dos outros actores mais experientes, e o segundo mostrou saber em que tipo de filme estava, e deu-nos um histrionismo que agita mas não chega a desestabilizar o equilíbrio delicado da crença.

TRANSFORMERS é juvenil, é simplista, e é básico. É também um dos filmes mais divertidos de 2007. Resta agora esperar uns anos para saber quanto do sucesso do filme se deveu a Michael Bay e quanto ao "padrinho" Steven Spielberg.


Momento definitivo: "What would Jesus do?"

segunda-feira, dezembro 24

Começa amanhã
Top 10 Filmes 2007



A partir de amanhã começam a ser divulgados os dez melhores filmes segundo o Quarto Escuro distribuídos em Portugal em 2007. Serão dois filmes por dia, com rankings alternados:

25 Dezembro - #10 e #5
26 Dezembro - #9 e #4
27 Dezembro - #8 e #3
28 Dezembro - #7 e #2
29 Dezembro - #6 e #1

No dia 30 de Dezembro será postado um agregador com o ranking completo e links para os textos individuais, e no dia 31 vou fazer um comentário ao ano em termos cinematográficos.

Àqueles filmes que já tiverem crítica no blog pouco irei acrescentar, escrevendo uma crítica inteira àqueles que a ainda não tinham. Resta apenas lamentar as políticas de distribuição em Portugal, já que filmes como The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford ou Into The Wild (apenas dois exemplos de uma longa lista) não poderão aqui constar.

Até amanhã!