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domingo, dezembro 30

#1 - EASTERN PROMISES
Diz-me com quem andas


IMDb

A HISTORY OF VIOLENCE, de 2005, foi uma aproximação de Cronenberg a Hollywood, a algo muito mais mainstream. Não foi um filme mau, foi até muito bom. Mas lamentou-se a ausência das marcas do realizador, aquela assinatura de autor que funciona muito muito bem quando é algo que nos diz alguma coisa, e que às vezes funciona ainda melhor quando nos é estranho.

Sobre o estranho debruçou-se este magnífico EASTERN PROMISES. Com um guião apenas medíocre, Cronenberg trouxe-nos uma história densa sobre a questão da identificação pessoal. No seu essencial, o filme diz-nos que não há uma moral rígida, um código de valores universal. Somos apenas indivíduos em conflito com a sua própria pessoa e com a pessoa que são para o mundo.

Viggo Mortensen já tinha sido o melhor de HISTORY, e neste PROMISES é-o de novo. Nikolai é uma corporização do filme, com o seu tom cru e ao mesmo tempo subtil, contido mas ao mesmo tempo explosivo. Já Naomi Watts teve a (in)felicidade de ser poupada às torturas tradicionais de ser uma personagem principal num filme Cronenberg, e ainda por cima carregou em si todas as fraquezas do guião: os macguffins e o final feliz.

Muito, muito bom. Fica com o primeiro lugar porque aumentou consideraveente as expectativas para o próximo filme "acessível" de Cronenberg, expectativas estas que estavam ligeiramente em baixo depois de A HISTORY OF VIOLENCE.

Fica o link para a análise já feita neste blog:

[Crítica original no 4E]

quarta-feira, dezembro 5

O Outro
EASTERN PROMISES, de David Cronenberg



EASTERN PROMISES, o novo de Cronenberg (escrito por Steven Knight) é um dos melhores filmes do ano. Quando uma jovem russa morre ao dar à luz, a parteira Anna (Naomi Watts) sente-se na obrigação de encontrar os familiares do bébé, e procura pistas dentro do diário da falecida. Mais tarde vimos a saber que Anna não está a fazer isto por conveniência de guião, mas porque para além de ter ascendência russa, ela própria perdeu um bébé. Um cartão dentro do diário leva-a a um restaurante de luxo operado por Semyon (Armin Mueller-Stahl), que parece interessadíssimo em cooperar.

Este gesto de compaixão de Anna aponta para o tema principal de EASTERN PROMISES, o de identificação. Quando Anna começa a entrar em contacto com as figuras relacionadas com Semyon, o foco do filme passa para o insondável Nikolai (um excelente Viggo Mortensen), membro da família de crime organizado vor v zakone sob as ordens de Semyon.

Nikolai é apenas um soldado da organização, o "motorista" como a si mesmo se denomina, apesar de fazer vários "trabalhos manuais" para os seus empregadores. Acompanha sempre o filho de Semyon, Kirill. Kirill, por sua vez, é um fanfarrão e um hedonista que luta contra a sua própria natureza homosexual. Tem uma clara atracção por Nikolai, e a impossibilidade de o ter fá-lo oscilar entre o ódio e a compaixão pelo motorista.

EASTERN PROMISES é auto-contido, com as suas próprias regras, tal como os vor v zakone. O filme não tem uma estrutura rígida de três actos. Nenhum personagem tem um apelido, já que estas se encontram perdidas da sua identidade. Apesar de ser um filme vívido e intenso, não se coíbe de um final feliz que muitos outros filmes do mesmo género teriam evitado.

Neste filme a violência é cometida com punhos, com lâminas, ou com agulhas de tatuagem. Não há um único disparo. Uma sequência de luta numa sala de sauna é lendária não só pela violência mas também pela nudez. Nudez essa que não, não é gratuita. As tatuagens de Nikolai explicitam a sua história dentro da máfia russa, e os golpes que vai sofrendo são apenas outro tipo de indícios.

Por estas razões e por outras, EASTERN PROMISES é um filme íntimo. E, ao mesmo tempo, um filme distante, como uma história contada através de recortes de jornal, exactamente como uma história sobre "estrangeiros" deve ser. O que é sem dúvida, é um grande filme.